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Michael Nothenberg
é Doutor em Química, Mestre em Farmácia,
professor universitário e jornalista
msnothenberg@gmail.com |
Investimentos reforçam
P&D de drogas para
doenças negligenciadas
Apenas 21 (1,3%) dos 1.556 fármacos introduzidos na terapêutica entre 1975 e
2004 tiveram como alvos algumas das cerca de 30 doenças enquadradas como
“doenças tropicais negligenciadas”, aquelas que matam ou incapacitam
aproximadamente um bilhão de pessoas todos os anos, algo como 15% da
população do planeta (Tabelas 1 e 2).
Depois de relegadas ao quase abandono durante décadas, estas moléstias, em
sua totalidade causadas por helmintos (vermes), protozoários, bactérias,
fungos e vírus, capitaneadas pela tuberculose, malária e aids, começam a
merecer mais atenção. Os dados |
animadores constam do levantamento anual G-Finder, divulgado pelo Instituto
George pela Saúde Internacional (Sidney, Austrália), no final de 2009.
Segundo o documento, os recursos totais disponibilizados para P&D em doenças
negligenciadas apresentaram crescimento, de US$ 2,56 bilhões para US$ 2,96
bilhões, entre 2007 e 2008. Parte do reforço de caixa foi propiciado pela
Fundação Bill e Melinda Gates, que elevou o montante de contribuições em US$
165 milhões em 2008. O valor contrasta com a contribuição conjunta da
indústria farmacêutica, elevada em apenas US$ 0,9 milhão no período. Digna
de nota foi a participação dos chamados “países em desenvolvimento
inovadores” (IDC, em inglês), como África do Sul, Brasil e Índia, a ponto de
os dois últimos entrarem no rol dos cinco principais países patrocinadores
de pesquisas sobre doenças negligenciadas em 2008. As contribuições dos dois
brics foram de US$ 36,8 milhões e US$ 32,5 milhões, respectivamente,
representando 2% e 1,7% dos aportes globais, valores significativos, mas
ainda distantes daqueles investidos por organismos como o Instituto Nacional
de Saúde dos Estados Unidos, NIH (US$ 1,1 bilhão, 36,5%), Fundação Gates
(US$ 617 milhões, 20,9%), Comunidade Europeia (US$ 129,9 milhões, 6,9%) e
Grã-Bretanha (US$ 103,3 milhões, 5,5%).
Brasil, África do Sul e Índia focalizaram as pesquisas em doenças relevantes
em seus respectivos territórios, com ênfase para pneumonia e meningite, que
absorveram 60% dos recursos. Hanseníase, cuja prevalência no Brasil e na
Índia não encontra paralelo no mundo, e o combate ao vírus da dengue também
mereceram parcelas significativas dos investimentos, à frente de outras
endemias, como malária, aids, tuberculose e infestações por helmintos.
Parcerias – Além de detectar o bem-vindo aumento nas contribuições de
países em desenvolvimento, o G-Finder expôs uma inesperada transição na
natureza dos investidores. Embora algumas indústrias farmacêuticas de
pequeno e médio porte tenham reduzido suas participações em US$ 23,8
milhões, a indústria farmacêutica como um todo, ao totalizar aportes em US$
365 milhões, converteu-se na terceira maior investidora em doenças
negligenciadas em 2008, depois do Instituto Nacional de Saúde
norte-americano e da Fundação Gates. Mais de três quartos (76,4%) destes
recursos vieram de empresas multinacionais.
A nova tendência, objeto de abrangente artigo na revista Chemical &
Engineering News (87(45):16-22), de 9 de novembro de 2009, concentra-se na
criação de parcerias públicas privadas (PPP), a exemplo do Novartis
Institute for Tropical Diseases, NITD, iniciativa conjunta da gigante
farmacêutica suíça e do Conselho de Desenvolvimento Econômico de Cingapura,
iniciada em 2002. Estabelecido no parque biomédico de Biopolis, que
concentra dezenas de empresas de biotecnologia, o NITD acomoda atualmente
cerca de cem pesquisadores, além de dúzias de estudantes e cientistas
visitantes, especializados primariamente no desenvolvimento de agentes
ativos contra o vírus da dengue e novas cepas resistentes de tuberculose e
malária. Nos mesmos moldes, a Novartis criou em 2007 o Novartis Vaccines
Institute for Global Health, NVGH, em Siena, Itália, cujos 25 pesquisadores
buscam, como primeira missão, o desenvolvimento de vacinas capazes de
prevenir diarreias causadas por espécies de Salmonella. Em junho de 2009, o
NVGH anunciou o início de um programa de pesquisas dedicado à febre tifóide.
O empreendimento opera em parceria com organizações, como a Global Alliance
for Vaccines and Immunisation, GAVI, apoiada, por sua vez, pela OMS, Unicef
e Fundação Gates. Ambas as iniciativas da Novartis também contam com
recursos da fundação filantrópica britânica Wellcome Trust.

Outra PPP bem-sucedida é o centro de P&D da GlaxoSmithKline implantado em
2002 na região de Tres Cantos, na Espanha, onde um total de 107
pesquisadores está envolvido em pesquisas relacionadas a tratamentos de
malária, tuberculose, leishmanioses e tripanosomoses. Parte dos recursos
necessários se origina de ONGs, como Medicines for Malaria Venture (MMV),
Global Alliance for Tuberculosis Drug Development (TB Alliance) e Drugs for
Neglected Diseases Initiative (DNDi) e Malaria Vaccine Initiative (MVI).
Americanas – Do outro lado do Oceano Atlântico, destacam-se
empreitadas como a da Merck, que anunciou a formação de joint venture com a
Fundação Wellcome para formar a empresa MSD Wellcome Trust Hilleman
Laboratories (MWTHL), a ser implantada nas imediações de Nova Déli, Índia,
com investimento conjunto inicial de US$ 130 milhões. A empresa, cujo nome
homenageia o bacteriologista norte-americano Maurice Hilleman (1919-2005),
tem por meta o desenvolvimento de vacinas de baixo custo para países em
desenvolvimento, com ênfase para vacinas contra infecções por estreptococos
do grupo A e vacinas que dispensem refrigeração.
A Eli Lilly assinou, por intermédio da Eli Lilly TB Drug Discovery
Initiative, acordo de colaboração com a Academia Sinica, tradicional
instituição de pesquisas de Taiwan, visando à descoberta de novos
tuberculostáticos. A Johnson & Johnson, por sua vez, comprometeu-se, por
intermédio de sua subsidiária belga Tibotec, a prosseguir, ao lado de sua
parceira TB Alliance, nos ensaios em fase II da diarilquinolina TMC207,
primeiro tuberculostático a atuar por mecanismo de ação original em quarenta
anos.

O TMC207 é um dentre 65 medicamentos, entre fármacos e vacinas destinadas a
doenças negligenciadas, em diferentes estágios de ensaios clínicos.
A TB Alliance também deposita esperanças no moxifloxacino, fluoquinolona de
terceira geração comercializada pela Bayer como anticancerígeno e
disponibilizada para a organização para a realização de ensaios em fase III
contra tuberculose. A MVI iniciou em maio passado ensaios em fase III da
vacina RTS,S, desenvolvida pela GSK e que, em fase II, mostrou-se eficaz em
53% das crianças imunizadas. Os primeiros resultados dos testes ora
realizados em onze locais no continente africano deverão ser divulgados no
início de 2012, permitindo, se positivos, sua produção industrial a partir
de 2015 ou 2016.
Brasil nas PPPs – O Brasil também assumiu sua participação na
política de parcerias ao anunciar, em setembro passado, a concretização de
acordo entre a empresa biotecnológica estatal Fundação Oswaldo Cruz, Fiocruz,
do Rio de Janeiro, e a britânica GlaxoSmithKline. De acordo com matéria
assinada pelo jornalista Ricardo Bonalume Neto, no periódico Nature
Biotechnology (27(12):1063-4), de dezembro de 2009, a operação, estimada em
US$ 2,2 bilhões, inclui a compra de know-how e posterior produção local, via
Instituto Bio-Manguinhos, da vacina antipneumocócica Synflorix, de última
geração, no Brasil. Importante atrativo para a concretização do acordo foi a
promessa de acessibilidade a custos reduzidos. Vendida por US$ 52-60/dose na
Europa, a vacina terá aqui preço de venda inicial de US$ 17, valor que será
progressivamente reduzido, até atingir US$ 7,50 nos últimos anos de vigência
do contrato, por volta de 2017.
O acordo também prevê o desenvolvimento conjunto de outras vacinas. As
prioridades incluem uma vacina antidengue, com perspectivas de entrar em
ensaios clínicos em 2012, e uma nova versão de vacina contra febre amarela,
que poderá substituir a disponível, cuja produção foi iniciada em 1937
graças a recursos da Fundação Rockefeller, de Nova York, e com a qual a
Fiocruz atualmente supre 80% da demanda mundial. Ainda outro projeto prevê o
aperfeiçoamento da vacina RTS,S, ativa contra o protozoário Plasmodium
falciparum, em testes na África, a fim de estender sua eficácia contra o P.
vivax, outro agente etiológico da malária.
Migrações e aquecimento – Aos que questionam os motivos que levam
grandes indústrias farmacêuticas a investir em doenças negligenciadas, cujos
tratamentos dificilmente renderão lucros, não há resposta simples. Para
algumas das empresas, é questão de prestígio, uma forma de atenuar a célebre
constatação de que 90% dos recursos de P&D farmacêutico são dedicados a 10%
da população mundial.
Bons relacionamentos com governos e suas autoridades sanitárias, bem como
com ONGs e médicos locais, podem se traduzir em transações vantajosas em
relação a outras classes de fármacos, reconhecimentos de patentes e o
consequente retardo nas autorizações para a produção de genéricos.
Há ainda outro fator a considerar: o envolvimento de tropas europeias e
norte-americanas em guerras em regiões endêmicas, a exemplo do Iraque e do
Afeganistão, não só acarretam riscos de saúde para os militares, como para
as suas famílias e comunidades após seu retorno. O mesmo risco se aplica ao
acolhimento de centenas de milhares de imigrantes e refugiados da América
Latina, Ásia e, principalmente, África, que batem às portas dos países do
Ocidente em volumes crescentes. Também cabe levar em consideração o suposto
aquecimento global, propiciando a proliferação de agentes etiológicos e
vetores para doenças tropicais em locais antes desfavoráveis ao seu
desenvolvimento. |
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