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Michael Nothenberg
é Doutor em Química, Mestre em Farmácia,
professor universitário e jornalista
msnothenberg@gmail.com |
Ouro nanoparticulado permite
liberação controlada de quimioterápicosL
A par de sua clássica atividade antirreumática, identificada em moléculas
contendo ouro há quase cem anos, o nobre metal, agora nano, é objeto de
pesquisas recentes, demonstrando seu valor no transporte e liberação de
agentes quimioterápicos, anticancerígenos em particular, no organismo.
A tecnologia aplicada no uso do metal de transição, selecionado pela sua
elevada estabilidade química e biológica, prima pela engenhosidade, como bem
exemplificam as nanogaiolas de ouro desenvolvidas por Younan Xia e
colaboradores, da Universidade Washington (St. Louis, MO). Destinadas a
transportar agentes antitumorais em seu interior, liberando o conteúdo em
doses definidas |
junto ao tecido-alvo, as gaiolas tiveram seu preparo e utilização descritos
na edição de novembro de 2009 da versão on-line do periódico Nature
Materials (DOI: 10.1038/NMAT2564).
O primeiro passo foi produzir cubos cristalinos de prata com base em uma
solução de nitrato de prata em meio redutor. Nestas condições, os cátions
são convertidos em prata metálica, precipitando, na presença de
cristais-semente, com geometria cúbica. Na segunda etapa do processo, os
cubos de prata funcionam como matrizes para a formação das gaiolas de ouro.
Para tanto, são aquecidos em solução de ácido cloroáurico, HAuCl4,
produzindo-se substituição galvânica, na qual os íons de ouro recolhem
elétrons dos átomos de prata, precipitando na forma metálica sobre as faces
dos cubos. A prata, por sua vez, retorna à forma iônica, solúvel.
Mudança de fase – As nanogaiolas de ouro assim formadas, à semelhança
de partículas coloidais, exibem a propriedade de absorver luz em
determinadas faixas de comprimentos de onda, dependendo da espessura de suas
paredes. Radiações de laser, em comprimentos de onda entre 750 e 900
nanômetros, na região do infravermelho próximo, são preferidas pelos
pesquisadores, pois produzem dois efeitos desejáveis: (1) ao absorver a
radiação, as nanogaiolas a convertem em energia térmica e esquentam; (2)
tecidos do corpo humano são relativamente transparentes à radiação nestes
comprimentos de onda, permitindo que ela penetre no corpo, alcançando
profundidades da ordem de vários centímetros.
Para funcionarem como transportadores de fármacos, as gaiolas de ouro
requerem um último detalhe, na forma de um revestimento de poli(N-isopropilacrilamida),
(pNIPAAm). Polímeros desta classe são sensíveis à temperatura, apresentando
propriedades distintas quando submetidos a
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temperaturas acima ou abaixo de determinada
temperatura crítica. Antes da mudança de fase, as cadeias de polímeros
têm propriedades hidrófilas e se posicionam em volta das gaiolas como
pelos eretos. Nesta configuração, funcionam como vedação, impedindo a
saída do fármaco contido no interior das gaiolas.
Entretanto, ultrapassada a temperatura crítica – parâmetro ajustável,
dependendo da estrutura química do polímero, abrangendo entre 32 e 39
graus –, as cadeias se tornam hidrofóbicas, encolhendo e liberando os
poros das gaiolas para permitir a livre passagem de seus conteúdos.
Liberada a dose desejada, pelo tempo programado, o feixe de raios
laser, aplicado sobre o tumor, é desligado, revertendo o polímero à
sua configuração original e bloqueando o efluxo de fármaco (Figura
1a). |
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Além da pNIPAAm, cuja temperatura de transição é de aproximadamente 32
graus, os pesquisadores sintetizaram um derivado, pNIPAAm-co-pAAm,
copolímero de poli(N-isopropilacrilamida) com poliacrilamida (pAAm), cuja
temperatura de transição – 39 graus – é apropriada à veiculação de fármacos
no organismo humano. A fixação dos polímeros ao ouro se dá por meio de
ligações covalentes ouro-tiolato, possibilidade aberta com a incorporação de
uma molécula iniciadora, contendo grupos dissulfeto, às cadeias de polímero
(Figura 1b).
A publicação descreve ensaio in vitro realizado em culturas de células de
câncer de mama com doxorubicina engaiolada, revestida com pNIPAAm-co-pAAm
(39 graus), demonstrando a capacidade letal do antineoplásico nestas
condições. Êxito comparável foi obtido com lisozima em gaiolas revestidas
com o pNIPAAm (32 graus): uma vez liberada, a enzima, que perderia atividade
a temperaturas acima de 37 graus, demonstrou a esperada ação hidrolítica
sobre paredes de bactérias em cultura.
Penetração – O grupo de Younan Xia está longe de ser o único a
desenvolver e ensaiar dispositivos de liberação de fármacos baseados em
nanopartículas de ouro. Pesquisadores do Massachusetts Institute of
Technology, MIT (Cambridge, MA), descreveram no início de 2009(1) a obtenção
de nanopartículas com diferentes formatos, que respondem à radiação no
infravermelho próximo em comprimentos de onda diferentes. “Nano-ossos” e
nanocápsulas poderiam, na previsão dos autores, ser carregados com fármacos
distintos, que seriam liberados em horários diferentes, dependendo do
comprimento de onda aplicado, no caso, 1.100 e 800 nm, respectivamente. A
publicação relata a formação de nanopartículas de ouro carregadas com
centenas de fitas de DNA.
Outras linhas de pesquisa propõem a utilização de nanopartículas de ouro
para favorecer a penetração de fármacos em células.
Pesquisadores do Instituto de Colóides e Interfaces Max Planck e da
Universidade Ludwig-Maximilian(2), (Potsdam e Munique, Alemanha,
respectivamente) e da Universidade de Toronto, Canadá(3), descrevem
dispositivos – microcápsulas e nanobastões de ouro, respectivamente,
carregados com agentes antitumorais – que, dotados de revestimentos
poliméricos, conseguem atravessar membranas celulares. Uma vez no interior
das células, as estruturas metálicas são submetidas ao aquecimento via
laser, liberando seus conteúdos medicamentosos.
No experimento canadense, os nanobastões, carregados com o antitumoral
cisplatina, produziram 78% mais mortes celulares do que a cisplatina
isolada, sugerindo que a dose do antitumoral encapsulado poderia ser
reduzida para um terço daquela praticada atualmente, graças a um efeito
sinérgico produzido entre o agente antineoplásico e a hipertermia local
causada pelo ouro aquecido.
Os autores de ambos os trabalhos, que comprovaram resultados animadores
apenas em culturas de células, admitem que o desafio maior será dotar as
embalagens douradas de propriedades que as tornem capazes de penetrar
exclusivamente em células tumorais.
Ligação direta – Estratégia alternativa à dos invólucros de ouro
consiste no preparo de estruturas macromoleculares contendo nanopartícula de
ouro ligada covalentemente a múltiplas moléculas de fármacos. A técnica foi
demonstrada por Eugene Zubarev e colaboradores(4), da Universidade Rice
(Houston, TX), na síntese de microcristais de ouro fixados à molécula de
paclitaxel (Taxol). O antineoplásico, introduzido em 1967, constitui recurso
fundamental no tratamento de tumores de mama e de ovário, entre outros, mas
carece de seletividade, o que explica a manifestação de efeitos colaterais
graves, como imunodepressão, náuseas e perda temporária de cabelo. Partindo
de uma propriedade diferenciada de algumas células tumorais, que apresentam
membranas mais
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permeáveis do que células saudáveis, os pesquisadores
esperam elevar eficiência e seletividade do quimioterápico ligando
cerca de 70 moléculas do agente a cada partícula de ouro, com cerca de
2 nm de diâmetro. Pressupõem que, com tal volume, as estruturas não
tenham acesso às células normais, atenuando a manifestação de efeitos
colaterais.
A síntese dos adutos ouro-paclitaxel requer, como procedimento
inicial, a proteção temporária da hidroxila em C2’(Figura 2) com
cloreto de terc-butildimetilsilila (TBS), por ser este grupo essencial
à atividade quimioterápica do fármaco. O passo seguinte consiste na
ancoragem de moléculas de hexaetilenoglicol (HEG) ao paclitaxel
através da hidroxila em C7, considerada desnecessária à interação do
fármaco com seus alvos (microtúbulos). No terceiro passo se dá o
acoplamento do paclitaxel modificado com partículas de ouro
previamente funcionalizadas com 4-mercaptofenol. Finalmente,
procede-se à liberação das hidroxilas em C2’, dando origem ao produto
desejado. |
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Multivalência – Processo semelhante ao empregado com paclitaxel foi
aplicado por Christian Melander e equipe, da Universidade da Carolina do
Norte (Chapel Hill, NC), para demonstrar o potencial de nanopartículas de
ouro na obtenção de estruturas multivalentes – nas quais determinadas
moléculas aparecem repetidamente – de interesse terapêutico(5). O objeto da
pesquisa foi o agente anti-HIV experimental TAK-779, introduzido na década
passada como
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antagonista do receptor CCR5, envolvido na invasão de
linfócitos pelo vírus. O novo fármaco
acabou arquivado por conta da forte irritação que provoca no local da
injeção, causada pela presença, na molécula, de átomo de nitrogênio
quaternário. Depois de sintetizar o análogo SDC-1721, destituído do
cátion amônio, e confirmar a ausência de atividade da nova molécula
sobre o patógeno, os pesquisadores produziram conjugados nos quais
doze moléculas do congênere inativo se encontram ligadas
covalentemente a partículas de ouro (Figura 3). O produto da síntese
apresentou atividade antiviral similar à do protótipo, efeito que os
pesquisadores atribuíram à multiplicidade de moléculas na nova
estrutura. |
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Com base no resultado, os autores sugerem o recurso da multivalência,
particularmente aquela possível com o emprego de nanopartículas de ouro,
como estratégia para o planejamento de novos fármacos, como alternativa à
criação de moléculas novas. Assim, adutos de ouro constituiriam nova
ferramenta no arsenal de estruturas capazes de bloquear interações
biológicas entre macromoléculas, a exemplo de dendrímeros, proteínas e
lipossomos.
Referências:
(1) Kimberly
Hamad-Shifferli et al. – ACS Nano 3(1):80–86, 2009.
(2) Helmuth Möhwald et al. – Angewandte Chemie International Edition
118(28):4728-33, 2006.
(3) Warren C. W. Chan et al. – Advanced Materials 20(20):3832-8,
2008.
(4) Eugene R. Zubarev et al. – Journal of the American Chemical
Society 129:11653-61, 2007.
(5) Christian Melander et al. - Journal of the American Chemical
Society 130:6896-97, 2007. |
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