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Michael Nothenberg
é Doutor em Química, Mestre em Farmácia,
professor universitário e jornalista
msnothenberg@gmail.com |
Plantas transgênicas
favorecem produção de biocombustíveis
O emprego de insumos vegetais não-sacaríferos para a produção de
combustíveis, álcool etílico em particular, esbarra no desafio tecnológico e
nos custos da deslignificação da celulose, requisito para a sua conversão em
açúcares fermentáveis. Assim, manipulações genéticas de plantas, no espírito
das que hoje permitem a produção de variedades vegetais mais produtivas e
resistentes a pragas, visando alteração no conteúdo e natureza de
componentes celulares estruturais, como lignina e suberina, poderiam
representar passo importante na viabilização desta alternativa
bioenergética. Com tal objetivo, Chang-Jun Liu e colaboradores, do
Brookhaven National Laboratory (Upton, NY), vinculado ao Departamento de
Energia dos EUA (DOE), vêm ensaiando vegetais mutantes, nos quais a
supressão ou alteração de enzimas nativas produz variedades dotadas de
propriedades diferenciadas, com maior potencial para a produção de biomassa. |
Metoxilação – Polímero hidrofóbico, cujas funções nas paredes das
células incluem a dotação de resistência mecânica e o controle da absorção
celular de água, a lignina é um dos alvos da equipe de pesquisadores. A
estratégia para reduzir sua produção, o que poderia acarretar maior
digestibilidade enzimática ou química das plantas modificadas, consiste em
inibir a síntese do polímero, tal como descreveram Chang-Jun Liu e seu
pupilo Mohammad-Wadud Bhuiya, em artigo publicado no início do ano(1).
A geração da lignina se dá com monômeros contendo cadeias fenilpropânicas
contendo grupos hidroxila e metoxila. São os chamados monolignóis,
particularmente alcoóis p-comarílico,
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coniferílico e sinapílico, sintetizados no citoplasma
de células vegetais e depois transportados para a
parede celular, onde polimerizam por acoplamento oxidativo, produzindo
macromoléculas com massas da ordem de 10 mil unidades, ou mais.
Como mostra a Figura 1, a oxidação, primeiro passo para a formação do
polímero, tem por requisito a presença de uma hidroxila livre na
posição 4, não havendo, contudo, restrição para a metoxilação daquelas
encontradas nas posições 3 e 5. O desafio dos pesquisadores foi,
portanto, identificar enzima capaz de adicionar grupos metila a
hidroxilas em posições 4 em moléculas similares, e modificá-la para
que apresentasse afinidade por monolignóis. |
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Modelagem comparativa – A escolha de protótipo recaiu sobre a
isoeugenol 4-O-metiltransferase (IEMT), enzima responsável pela metoxilação
da hidroxila em posição para do isoeugenol, propenilfenol volátil
estruturalmente semelhante aos monolignóis, produzido por espécies vegetais
como Clarkia breweri, perfumada planta anual encontrada nas montanhas
costeiras da Califórnia, e Ocimum basilicum, o popular manjericão.
Aproveitando caracterização prévia desta IEMT, publicada em 1999, os autores
utilizaram-na como “matriz” em técnica computacional denominada modelagem
por homologia, também conhecida por modelagem comparativa. O objetivo foi a
construção da nova enzima com base na sequência de aminoácidos e da
estrutura tridimensional, obtida por difração de raios X, da proteína
homóloga.
Para elevar sua afinidade da enzima “mutante” pelos monolignóis, os
pesquisadores concentraram-se no estudo de sete aminoácidos compreendidos no
sítio ativo da enzima, com possível influência sobre a acomodação da
estrutura fenólica do substrato. Triagens de variantes da enzima indicaram
que a substituição dos aminoácidos Glu-165 e Thr-133 por aminoácidos mais
hidrofóbicos foram determinantes para a especificidade com relação ao
substrato, levando, ainda com o auxílio de uma terceira mutação, à obtenção
de uma enzima capaz de promover a para-metoxilação de monolignóis com
eficiência 70 vezes mais elevada que a enzima matriz (Figura 2). Ensaio de
polimerização in vitro demonstrou posteriormente a ausência no meio de
reação de produtos oriundos de acoplamento oxidativo de monolignóis,
confirmando a concretização da proposta inicial.

Os pesquisadores têm agora pela frente o clássico desafio da engenharia
genética, qual seja, inserir o código correspondente à nova enzima nos
cromossomos das células vegetais e verificar sua expressão, originando, como
desfecho, planta caracterizada por produção reduzida de lignina.
Plantando no deserto – A suberina, polímero estrutural predominante
na cortiça, é um segundo polímero estrutural objeto de pesquisas nos
laboratórios Brookhaven. O fato de a suberina participar da estrutura de
paredes cuja permeabilidade determina o acesso de água e nutrientes à
planta, além de servirem como barreiras para toxinas e micro-organismos,
cria perspectivas atraentes na manipulação dos genes envolvidos na síntese
do biopolímero. A presença reduzida de suberina nestes canais poderia, a
exemplo do que ocorre com a inibição da síntese de lignina, favorecer o
desenvolvimento de plantas mais digeríveis, apropriadas à produção de
biocombustíveis.
Há, porém, outra implicação, até mais relevante. Alterações na
permeabilidade das paredes em relação à água e nutrientes poderiam tornar
uma espécie vegetal geneticamente manipulada neste particular mais
resistente à escassez de água e capaz de sobreviver em terras áridas e,
segundo os pesquisadores, até mesmo na presença de água salobra. Em
contrapartida, áreas mais férteis, antes desperdiçadas na produção de
biocombustíveis, crítica frequente ao cultivo de milho com tal finalidade
nos Estados Unidos, seriam reservadas a objetivos mais nobres, como a
produção de alimentos.
Mais uma vez o autor Chang-Jun Liu e colaboradores estudaram a biossíntese
do biopolímero para identificar alvos para a possível inibição do processo.
A suberina é um poliéster lipofílico constituído de dois domínios: um
alifático, formado por ácidos graxos; e outro aromático, constituído de
hidroxicinamatos, predominantemente ferulatos, p-comaratos e/ou sinapatos.
Na análise de uma variedade de Arabidopsis, vegetal popular em experimentos
genéticos(2), os cientistas identificaram a enzima
hidroxiácido-hidroxicinamoiltransferase, HHT, como a responsável pela
formação de ésteres de ferulato com cadeias graxas, bem como de
monoferuloilglicerol, moléculas apontadas como monômeros precursores da
suberina. O passo seguinte foi inativar o gene At5g41040, que codifica a
enzima, criando mutantes de Arabidopsis, cujas raízes e sementes apresentam
conteúdo reduzido de ferulato na suberina produzida, sem afetar os teores de
p-comarato e sinapato.
Referências:
(1) Mohammad-Wadud Bhuiya & Chang-Jun
Liu - Journal of Biological Chemistry 285(1):277-85, janeiro de 2010.
(2) Jin-Ying Gou, Xiao-Hong Yu & Chang-Jun Liu - Proceedings of the National
Academy of Sciences 106(44):18855-60, novembro de 2009. |
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