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Crise mundial levou setor a fechar
quase 5% da capacidade instalada e poderá faltar pigmento se a demanda
crescer
Marcelo Fairbanks |
O mercado mundial de
dióxido de titânio busca um novo ponto de equilíbrio. Depois da derrocada
nas vendas do principal pigmento branco e agente opacificante das tintas,
plásticos e papéis, iniciada no quarto trimestre de 2008 e prolongada
durante 2009, agora despontam os primeiros sinais de reação de demanda nos
principais mercados consumidores, a América do Norte e a Europa. Falta
saber se essa recuperação suportará os solavancos atuais da economia
global, como a crise grega. E também acompanhar os impactos da recente
redução da Tarifa Externa Comum (TEC) no mercado brasileiro.
Até 2008, o balanço de oferta e demanda se equilibrava. A demanda anual
era praticamente igual à capacidade de produção anual instalada. Como o
consumo é muito maior durante a primavera e o verão do Hemisfério Norte,
com pico entre abril e agosto, as indústrias precisavam operar cheias
mesmo nos demais meses, com o objetivo de montar estoques suficientes para
satisfazer o apetite dos clientes. A crise de 2008, deflagrada no outono
setentrional, desarrumou o tabuleiro. As fábricas demoraram um pouco para
sentir que o mercado perdera a vitalidade, mas acabaram sendo colocadas em
ociosidade ou definitivamente fechadas.
“Como a cadeia toda vinha carregando estoques elevados, temendo uma
escassez, e já estavam a caminho grandes volumes de dióxido de titânio
importado para o Brasil, tivemos dois trimestres de desova de produtos,
com uma queda dramática de pedidos”, comentou Ciro Marino, diretor de
negócios para a América Latina da Cristal-Millennium Inorganic Chemicals.
Ele se refere ao quarto trimestre de 2008 e ao primeiro trimestre do ano
passado. Depois desse período, segundo avaliou, os clientes preferiram
concentrar suas compras no único produtor local, a Cristal-MIC, a
importar, por falta de segurança quanto ao comportamento do mercado.
“Durante o primeiro semestre de 2009, nós só vendemos os estoques mundiais
que tínhamos acumulado”, concordou Fernando Antunes, gerente de vendas da
área de pigmentos de dióxido de titânio para a América do Sul da Huntsman.
“Em 2008, a companhia fechou definitivamente a fábrica da Inglaterra e, em
2009, parou a da Espanha, que só está sendo reativada em março.”
Segundo Antunes, as estimativas globais indicavam que os produtores de
TiO2 iniciaram 2009 com estoques para 120 dias de consumo “normal”,
enquanto a média histórica para o mês de janeiro não passa de 60 dias. A
conjunção de estoques altos e preços baixos provocou a parada das
fábricas. “A crise derrubou o consumo mundial em 30% a 35%”, afirmou.
Esgotados os estoques, as operações tiveram de ser reiniciadas, mas em
outros conceitos. “Antes da crise, planejávamos a produção com base no
histórico das vendas passadas, mas depois da crise o que passou a
determinar a produção é a previsão de vendas, com a intenção de não formar
estoques”, comentou Antunes.
“Pela primeira vez em pelo menos vinte anos, as indústrias de TiO2
paralisaram suas operações”, salientou Marino. Segundo explicou, grande
parte do parque produtor mundial voltou à ativa no início do segundo
semestre de 2009. Porém, a situação financeira das empresas estava
deteriorada. “Não havia caixa nem para bancar a produção”, explicou
Marino. Por isso, a ordem da companhia para todas as suas unidades foi a
de gerar caixa, atitude que se generalizou no setor. Isso significa
produzir o suficiente para atender aos pedidos e, ao mesmo tempo, buscar
redução de custos.
No caso da fábrica brasileira, instalada em Camaçari-BA, a situação é um
pouco mais amena. Marino explicou que a unidade é integrada com a mina
própria de ilmenita, aliviando um pouco os custos. Mesmo assim, em 2008,
já sob o controle da Cristal (empresa saudita), o processo foi revisado,
aumentando-se o consumo de sucata para melhorar a produtividade. Isso
permitiu reduzir de três para dois o número de fornos de calcinação
operantes, sacrificando 10% da capacidade produtiva. “O gás natural
representa um dos nossos maiores custos, ao lado da eletricidade”, disse o
diretor.
Até abril de 2009, a Cristal-MIC operou a fábrica baiana a 60% da
capacidade já diminuída no ano anterior. “Em agosto, voltamos a acionar o
terceiro calcinador e recuperamos nossa capacidade nominal de 60 mil
t/ano”, afirmou. A capacidade efetiva histórica da fábrica se limita a 56
mil t/ano, como informou. Entre setembro e dezembro de 2009, a planta
rodou cheia. Mesmo assim, a Cristal iniciou o ano com estoques baixos,
suficientes para apenas 20 dias de consumo.
Em termos mundiais, ele citou o fechamento de fábricas como a da Tronox em
Savannah (EUA), o da Huntsman na Inglaterra e o da própria Cristal em
Baltimore (EUA). Combinados com outros cortes, Marino calcula uma redução
permanente de capacidade produtiva global em torno de 5%. Além disso,
atualmente, nota-se uma redução na oferta de cloro desde o final de 2009,
capaz de criar problemas para os processos do tipo cloreto de TiO2. Os
tipos sulfato sofrem com a elevação dos preços mundiais do enxofre e do
ácido sulfúrico dele derivado.
Para piorar o quadro, há muito tempo não se fala em construir novas
fábricas do pigmento. “Isso evidencia que a remuneração ao produtor não
está sendo adequada, situação comprovada pelo fato de o terceiro
fabricante mundial, a Kerr McGee (Tronox), estar em processo de
recuperação judicial nos EUA”, avaliou.
Estimativas do setor indicam, segundo Marino, que um quarto da capacidade
instalada opera acima do custo médio global. Em geral, as plantas
europeias têm custos de produção em euros, mas vendem seus produtos em
dólares, e têm excesso de produção. Nos Estados Unidos, há um melhor
balanço de oferta e demanda. Em contraste com esse quadro, as indústrias
consumidoras de TiO2, como a de tintas, de plásticos e de papel se revelam
saudáveis e com possibilidade de retomar o ritmo de crescimento.
Marino adverte que a “estação” mundial de compras de TiO2 começa em abril
e os estoques estão baixos em todo o mundo. “Não é caso para pânico, nem
acredito que venha a faltar produto neste ano, até porque não se prevê
grande evolução de vendas”, tranquilizou. Ele acredita que, por
consequência, o ano terminará com estoques igualmente baixos, situação a
se repetir em 2011. “Leva cerca de dois a três anos para que a indústria
consiga recompor seus estoques e equilibrar a situação na cadeia
produtiva”, calculou. Enquanto isso, pode haver alguma pressão para altas
localizadas de preços. Pelos seus dados, os preços do início de 2010 são
praticamente os mesmos do final de 2008. “Não adianta comparar com 2009,
que foi um ano de ajustes e muita gente ‘queimou’ produto para fazer
caixa”, explicou.
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Antunes avalia que os consumos de TiO2 nos EUA e na
Europa ainda se mostram débeis, colocando em ritmo frouxo a produção
mundial do pigmento. “Em 2009, por exemplo, os EUA apresentaram um
consumo abaixo do nível mínimo histórico, e ainda há excedentes no
mercado”, comentou. Pelo menos a Ásia atua como importadora líquida do
produto. Todos os segmentos compradores relataram queda de atividade,
tendência que começou a ser revertida em julho de 2009. Segundo
informou, uma fábrica de TiO2 leva cerca de três meses para ser
colocada em marcha dentro dos padrões de qualidade. Por isso, houve
alguma falta localizada de produtos, puxando os preços para cima.
A Huntsman, como a Cristal, opera fábricas nas vias sulfato e cloreto
em várias localidades. Segundo Antunes, as mais |
Cuca Jorge

Antunes: Ásia enxuga qualquer excedente do mercado global |
eficientes, em geral, são as plantas da linha cloreto instaladas na
América do Norte, embora as de sulfato da companhia também tenham boa
performance. Curiosamente, as fábricas de cloreto sofreram mais com a
crise. “As plantas são bem maiores e suprem grandes transformadores de
plásticos e fabricantes de tintas, enquanto as linhas sulfato servem para
tintas de impressão e para contato com alimentos, que sentiram menos os
efeitos da crise”, avaliou.
Antunes também aponta um corte de capacidade produtiva mundial entre 4,5%
e 5% no TiO2. Isso implica que, se houver uma retomada dramática da
economia mundial em 2010, certamente haverá alguns contratempos para
suprir os clientes. “Daí a importância dos relacionamentos de longo prazo
com os fornecedores”, disse. No Brasil, a Huntsman atende por meio de
distribuidores e por vendas Indent para grandes clientes.
Durante 2009, Antunes verificou a atuação no país de novos concorrentes,
fato que acirrou a disputa por negócios. Ao mesmo tempo, ele viu
desaparecer as ofertas oportunistas em caráter spot. “Sinal de que não há
produto sobrando no mundo, porque a Ásia segue crescendo e enxugando
excedentes”, analisou. O primeiro trimestre de 2010, na sua avaliação,
manteve as vendas saudáveis, com volumes estáveis e preços satisfatórios.
No Brasil, as vendas de tintas são puxadas pela construção civil e pela
indústria automobilística. Porém, o crescimento das tintas econômicas, que
levam menos dióxido de titânio em sua formulação, permite aumentar a
produção sem elevar a demanda do insumo. Ele recomenda aos clientes que
programem seus pedidos de forma realista, evitando a busca por suprimentos
adicionais não planejados. “Não estamos operando com folga e uma
importação leva de dois a três meses para chegar”, salientou.
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