NEGÓCIOS
Wacker planeja recuperar lucros em 2010

Após comemorar recordes de vendas e lucro líquido em 2008, a Wacker, especialista alemã em química do silício, não conseguiu se defender da crise financeira mundial nem da retração na demanda de seus clientes, e registrou queda nos principais indicativos financeiros do ano fiscal de 2009. As vendas, que atingiram € 4,3 bilhões no frutífero ano de 2008, caíram para € 3,7 bilhões no ano passado, uma baixa de aproximadamente 14%. O resultado foi ainda mais duramente prejudicado: o lucro antes dos juros, impostos, depreciação e amortização (LAJIDA, ou EBITDA, na sigla em inglês), de € 1,06 bilhão em 2008, despencou pouco mais de 40%, para € 607 milhões em 2009, e o resultado líquido apurado no período mostrou um prejuízo de € 75 milhões, em decorrência principalmente do fraco desempenho do segmento de semicondutores.

A crise mundial foi especialmente danosa para a divisão de negócios Siltronic, uma das principais produtoras mundiais de sanduíches de silício hiperpuro, insumo vital para a indústria de semicondutores e os fabricantes de microchips. Refletindo uma situação no mercado de semicondutores descrita pelo CEO e presidente da Wacker, Rudolf Staudigl, como “extremamente difícil”, a divisão Siltronic perdeu metade de suas vendas em 2009. Com pressões de preços afetando os negócios em sanduíches de todos os diâmetros, o resultado da divisão, expresso na forma do LAJIDA, foi um prejuízo de € 162 milhões.

As divisões químicas da empresa (Silicones, Polímeros e Biotecnologia) se saíram bem melhor em 2009. As vendas da Wacker Biosolutions, inclusive, apresentaram crescimento, passando de € 98 milhões, em 2008, para € 105 milhões, no ano passado. Combinadas, entretanto, as vendas das três divisões apresentaram uma queda de 12%, de € 2,375 bilhões para € 2,088 bilhões, mas o lucro medido pelo LAJIDA, de € 286 milhões, manteve-se no mesmo nível de 2009. Segundo Staudigl, o resultado mais favorável das divisões químicas se beneficiou “de uma substancial recuperação da demanda dos clientes durante o ano”, além dos impactos positivos de medidas para a redução de custos, e de preços mais baixos de matérias-primas e de energia que em 2008.

A grande vitoriosa no turbulento ano de 2009, no entanto, foi a divisão Polysilicon, responsável pela produção de silício policristalino, sílica pirogênica e clorosilanos para aplicações em semicondutores e energia fotovoltaica. Além de ver suas vendas passarem de € 828 milhões, em 2008, para € 1,121 bilhão, em 2009, a Wacker Polysilicon comemorou a quebra da barreira do € 1 bilhão em vendas pela primeira vez. O resultado expressivo se amparou especialmente em volumes adicionais de produção, que elevaram em 50% as quantidades fabricadas, em relação a 2008, totalizando 18,1 mil toneladas. O LAJIDA, mesmo sem apresentar expansão tão pronunciada, cresceu 23%, de € 422 milhões para € 521 milhões, apesar de dificuldades como menores preços para as vendas de silício policristalino no curto prazo, e da saída da Wacker da joint venture Wacker Schott Solar, dedicada à produção de sanduíches de silício policristalino para aplicação em energia solar.

“Quando consideramos quão difícil o ambiente econômico era, especialmente no começo de 2009, o desempenho da Wacker no campo operacional foi respeitável, certamente, à exceção do negócio de semicondutores”, crê o CEO e presidente da empresa. Ele também se mantém convicto de que as vendas e o LAJIDA da Wacker crescerão em 2010, se nada de muito grave acontecer na segunda metade do ano, uma vez que o primeiro trimestre teve resultados muito bons. A expectativa é de que as vendas ultrapassem, novamente, a casa dos € 4 bilhões, e o lucro líquido alcance a faixa das centenas de milhões de euros. “As macrotendências das quais nos beneficiamos continuam valendo: eficiência energética, redução de emissões de CO2, maior prosperidade em economias emergentes e o avanço da digitalização. Todas essas tendências dão combustível para os produtos da Wacker e, consequentemente, para o nosso crescimento”, disse

Divulgação

Staudigl espera retomada do crescimento em 2010

Staudigl, que vê a economia mundial em lenta recuperação desde o segundo trimestre de 2009, com menor intensidade nos EUA e na Europa, mas com força redobrada na Ásia, especialmente na China. A Ásia, aliás, é o maior mercado da empresa, respondendo por 34% das vendas consolidadas, ou € 1,25 bilhão. O Brasil, por sua vez, ainda não figura entre os principais consumidores de produtos da empresa, embora Staudigl veja “forte desenvolvimento” no país. Ele atribui a posição mais modesta da empresa por aqui ao fato de os produtos da Wacker serem utilizados em tecnologias avançadas pouco disseminadas no mercado ou na indústria locais. As vendas da companhia alemã no Brasil giram em torno de € 50 milhões por ano.

Sustentabilidade – Integrando o programa global de Atuação Responsável da indústria química desde sua adoção na Alemanha, em 1991, a Wacker se apresenta como uma empresa alinhada com o desenvolvimento sustentável. O compromisso se expressa em medidas como a redução dos

resíduos gerados em suas fábricas pelo reaproveitamento de energia térmica e de subprodutos nas próprias fábricas, o desenvolvimento de processos biotecnológicos para a obtenção de produtos químicos “verdes”, ou a comercialização de produtos que contribuem para a mitigação do efeito estufa, caso do silício policristalino empregado na produção de energia solar, e do silicone utilizado na fabricação de lentes de diodos emissores de luz (LEDs, na sigla em inglês).

“Acreditamos que a maior parte do crescimento da Wacker nos próximos anos virá de produtos sustentáveis”, prevê Jörg Krey, vice-presidente sênior de desenvolvimento corporativo da empresa. Números apresentados por Krey mostram que o potencial de crescimento do mercado de produtos químicos nas próximas três décadas é considerável. Puxado principalmente pela elevação do nivel

Divulgação

Silicone permite lente diretamente produzida no LED

de vida nos países chamados BRICs (Brasil, Rússia, China e Índia), o mercado químico mundial deverá dobrar nos próximos 25 anos, crescendo a uma taxa anual composta de 3,7%.

Uma das apostas da Wacker para participar desse crescimento vendendo produtos sustentáveis é a ampliação do emprego da energia fotovoltaica, que utiliza, entre outros insumos, o silício hiperpuro e os silicones produzidos pela empresa. Para Wolfgang Storm, gerente sênior de marketing da empresa alemã, a energia solar encerra o maior potencial teórico de utilização no futuro, muito à frente da segunda colocada, a energia eólica. A tecnologia dominante para a produção de células solares, baseada no silício policristalino, evoluiu nos últimos quinze anos, tanto em termos de eficiência energética quanto de redução da espessura dos sanduíches e do período necessário para o retorno do investimento. E, apenas nos últimos três anos, o custo dos sistemas fotovoltaicos, na Alemanha, caiu à metade. “A energia solar terá uma participação crescente nas fontes de energia do mundo, e o silício hiperpuro da Wacker desempenha um papel-chave para torna-lá uma das tecnologias predominantes e uma fonte de energia sustentável”, afirma Storm.

A Wacker também vê ganhos ambientais no emprego de alguns de seus produtos em soluções de alta eficiência energética. Um exemplo são os silicones elastoméricos, que representam cerca de um quinto do mercado mundial de silicones, avaliado em € 8 bilhões, em 2009. Os silicones elastoméricos, segundo o Dr. Bernd Pachaly, líder da unidade de negócios Silicones de Engenharia da Wacker Silicones, têm aumentado sua participação na produção de LEDs, graças a propriedades como a resistência à radiação ultravioleta e ao calor, e por permitirem soldagens, acima dos 260ºC, livres de chumbo, bem como a fabricação e a montagem de lentes diretamente sobre chips, em uma única etapa de produção. As aplicações são o encapsulamento de chips e a produção de lentes com alta transparência. Os LEDs, por sua vez, representam uma alternativa ambientalmente interessante para a iluminação, pois sua eficiência, entre 30% e 80%, é superior à das lâmpadas fluorescentes, próxima a 25%, e muito maior que a eficiência das lâmpadas de filamento, de apenas 5%. Dados apresentados pelo dr. Pachaly mostram que LEDs têm grande potencial para reduzir emissões de CO2: só na Alemanha, o uso desses dispositivos poderia evitar o lançamento de 1,6 milhão de toneladas/ano de CO2, gerando uma economia de € 400 milhões anuais. Aparelhos televisivos equipados com LEDs economizam até 50% da energia necessária para o seu funcionamento e, globalmente, 30% do consumo de eletricidade para iluminação poderia ser eliminado se os diodos fossem utilizados.

O segmento de construção civil é outra área em que há amplo potencial para a redução de emissões, particularmente nas construções residenciais, que correspondem à maior parte dos gastos do setor. Segundo pesquisa do Deutsche Bank, datada de 2009, 40% de todas as emissões de CO2 vêm de edificações, seja pelo consumo de eletricidade ou pelo condicionamento de ar. Uma das principais vertentes para a redução dessas emissões consiste do isolamento térmico das construções, cuja eficácia foi comprovada pela Wacker em testes em construções edificadas para esse fim em Beijing, Shanghai e Guangzhou, na China. O experimento revelou que a economia de energia proporcionada pelo emprego de isolamento térmico chegou a 16% em Beijing, 50% em Shanghai e 45% em Guangzhou, durante o verão, e, no inverno, nas mesmas cidades, o consumo foi 40%, 35% e 37% menor, respectivamente.

A Wacker participa de aplicações de isolamento térmico com dispersões poliméricas em pó, baseadas em copolímero de acetato de vinila e etileno, utilizadas como ligante em produtos químicos com aplicação na indústria de construção. O polímero em pó aumenta a adesão a diversos tipos de substratos, melhorando a resistência dos sistemas de isolamento térmico a intempéries e elevando sua vida útil. Os silicones também possuem papel importante na redução do

Divulgação

Concreto hidrofóbico amplia isolamento térmico

impacto ambiental de construções. Revestimentos com base em resinas de silicone possuem um caráter hidrofóbico que protegem fachadas contra a água e reduzem as transferências de calor, por permitirem que as paredes se mantenham “secas” – a condutividade térmica de um material isolante úmido pode ser até 50% maior que a condutividade do mesmo material quando seco. Essas tintas, por outro lado, possuem uma certa permeabilidade que favorece a evaporação da umidade, ampliando o efeito de isolamento térmico. Dados da Wacker mostram que a proteção de paredes com revestimentos com base em silicone pode reduzir o consumo total de aquecimento de uma casa em 4,6%. Além disso, os custos de manutenção das fachadas podem ser reduzidos quase à metade, no longo prazo, se a pintura tradicional é substituída pelo revestimento hidrofóbico.

Fontes renováveis – O esforço da Wacker para tornar suas atividades mais sustentáveis poderá levá-la a substituir parte de seus principais insumos industriais por sucedâneos derivados de biomassa na sua principal instalação industrial, localizada em Burghausen, na Alemanha, próximo à fronteira com a Áustria.

Esse parque industrial é alimentado por quatro matérias-primas principais: etileno, metanol, sal-gema e silício metalúrgico. Graças ao avanço da biotecnologia, e dados os preços crescentes das matérias-primas petroquímicas no mercado mundial, a empresa estuda alternativas para a substituição do etileno e do metanol, obtidos do petróleo, por insumos renováveis, nesse caso, o ácido acético biotecnológico e o etileno derivado de bioetanol. Segundo informações de Fridolin Stary, vice-presidente sênior de Pesquisa e Desenvolvimento Corporativos, a Wacker iniciou, em 2009, a produção de ácido acético obtido de etanol em uma planta piloto com capacidade para 500 t/ano. O ácido é obtido da oxidação em fase gasosa de etanol, produzido, por sua vez, da fermentação de biomassa, realizada por leveduras. Conforme afirmou Stary, o processo leva a excelentes rendimentos, superiores a 90%, e boa seletividade, que poderia ser melhorada com o desenvolvimento de um catalisador otimizado. Outra vantagem está no fato de que essa rota de produção evita a formação de ácido fórmico, um produto químico muito corrosivo e que destrói o aço comum. O sucesso na produção do ácido acético usando biotecnologia tornaria a Wacker livre do metanol, que é utilizado exatamente na obtenção do ácido. Para Stary, entretanto, a rota preferida no futuro para a obtenção do ácido acético deverá ser a fermentação “homoacética”.

Nesse processo, o ácido acético é obtido pela fermentação de açúcares por bactérias estritamente anaeróbicas. Até o momento, porém, a cinética dessas reações não é rápida o suficiente para as necessidades industriais. Para conquistar a independência total das matérias-primas petroquímicas, a Wacker também está apostando na obtenção de etileno pela desidratação do bioetanol, a princípio derivado da cana-de-açúcar. Após o sucesso com a planta piloto de ácido acético, uma nova deverá ser construída para a produção do etileno “verde”.

Divulgação

Em Burghausen, insumos "verdes" podem
substituir metanol e eteno

Stary, que viveu muitos anos no Brasil, se mostrou atento às polêmicas envolvendo as condições de trabalho na indústria canavieira local – afinal, o pilar social da sustentabilidade não pode se compatibilizar com trabalho escravo ou infantil, se ele existir – e, caso a Wacker venha se abastecer de bioetanol brasileiro, será cuidadosa na seleção de seus parceiros. No futuro, no entanto, Stary acredita no sucesso das biorrefinarias de 2ª geração, que utilizam como matérias-primas as plantas inteiras ou o seu bagaço, o que livraria a Wacker também da dependência da indústria de cana.

Márcio Azevedo

EMPRESAS
Bayer superou a crise com produtos sustentáveis

Como pano de fundo na apresentação das projeções de negócios até o final de 2010, após o balanço dos resultados do grupo em meio às convulsões econômicas globais do ano passado, a Bayer brasileira deixou estampada uma paisagem do planeta colorido na visão futurista de um menino de treze anos, Murilo Hideki Ashiguti, escolhida entre outras 2,4 milhões de pinturas de outras crianças de cem nacionalidades num concurso em parceria da empresa com o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e a Fundação para a Paz e Meio Ambiente (FGPE), corroborando o slogan publicitário da companhia aludindo a química para uma vida melhor.

Da aparente abstração conceitual de uma filosofia de trabalho para a rotina da prática em pesquisa e desenvolvimento, dois projetos consolidando as megatendências tecnológicas globais nos laboratórios da Bayer atualmente servem como emblema desse esforço concreto nas suas divisões para a criação de produtos ambientalmente corretos para a produção de energia limpa – além de novos materiais, revestimentos e soluções originais para o setor agrícola e de saúde.

A nanotecnologia e os polímeros estão na base desses chamados “megaprojetos de tendências globais” em desenvolvimento, como o Solar Impulse – um avião construído com placas de policarbonato e aplicações de espuma rígida de PU, que alcançou o máximo de leveza (1.660 kg) graças aos seus componentes estruturais e baterias à base de nanotubos de carbono. Com a mesma envergadura de um Boeing 747 – 63 metros –, o Solar Impulse será movido exclusivamente por meio de 12 mil células de captação de energia solar e está sendo programado para realizar seu primeiro voo ao redor do mundo dentro de quatro anos.

A outra pesquisa da Bayer sobre as tendências tecnológicas globais desenvolve um conversor marítimo como solução factível para a geração, transmissão e distribuição limpa de energia elétrica – reduzindo os impactos sobre o clima a praticamente zero, em relação aos processos tradicionais. Os protótipos do conversor marítimo são fabricados com filmes de poliuretano com eletrodos elásticos e, entre 2013-14, deverão ser apresentados pela Bayer MaterialScience ao mercado.

Inovação, alternativa anticrise – No balanço de desempenho da comercialização em 2009, os produtos e insumos embutindo os pressupostos de sustentabilidade ambiental foram determinantes para com sucesso as turbulências da crise global com seus inevitáveis reflexos no mercado nacional. A inconstância que se alojou na indústria durante 2009 por conta da drástica queda de demanda mundial e a desaceleração do compasso de produção industrial, segundo o presidente da Bayer MaterialScience, Ulrich Ostertag, demonstrou a necessidade de inovar aumentando a aplicação de matérias-primas renováveis nos produtos e, naturalmente, também as táticas e apelos de comercialização – que foram reformuladas para propulsionar os negócios da unidade – se preparando para enfrentar os terremotos e tsunamis no cenário econômico planetário.

O presidente da Bayer brasileira, Horstfried Laepple, explicou que, pela primeira vez, a direção do grupo posiciona o Brasil, que atualmente ocupa o sétimo mercado no ranking entre os mercados mais importantes para a Bayer, à condição de “país-chave como polo estratégico regional e global para a companhia manter a posição de liderança no mercado”. Conforme acrescentou, por simples inferência dos resultados de fluxo de caixa: a crise iniciada em 2009 varreu o mercado norte-americano e o europeu, mas no bloco dos emergentes – Brasil, Rússia, Índia e China (BRIC) – os negócios cresceram 1,5% (4,3 bilhões de euros), representando 14% do total das vendas mundiais da Bayer. Segundo Laepple, um ponto forte no fator competitividade brasileira: 45% da produção nacional é exportado para mais de trinta países da América do Sul e Ásia.

Divulgação

Laepple: BRICs representaram 14% do faturamento mundial em 2009

Rainer Krause, diretor-geral da Bayer Schering Pharma brasileira, esclareceu que a área de pesquisa e desenvolvimento continuará centralizada na matriz alemã da companhia, em parceria com centros avançados de pesquisa universitária transnacional, com previsão de investimentos de 2,9 bilhões de euros em 2010. Segundo ele, a legislação e os estatutos de normas técnicas de farmacovigilância vigentes oferecem um diferencial de competitividade determinante para a expansão das áreas de gestão e a atração de investimentos no Brasil, em comparação com outros mercados emergentes. “A qualificação da mão-de-obra formada por cientistas e profissionais de bom nível universitário sem dúvida é importante para a produção de novos medicamentos e novas linhas de outros produtos”, esclareceu Krause. “Mas o compromisso da Bayer na escolha desse novo polo regional para a América Latina está mais relacionada com a capacidade do país de comportar novas responsabilidades e seu potencial de mercado interno”, disse Krause.

Até o final de 2010, os investimentos que irão estofar essa posição estratégica em que o país foi colocado no planejamento do grupo totalizarão R$ 180 milhões, reservados para atualizar tecnologicamente os laboratórios e fábricas de medicamentos do grupo no Rio de Janeiro (Belford Roxo) e São Paulo (Cancioneiro) Uma plataforma nova deverá ser instalada nas fábricas de MDI e anilina para padronizar as unidades locais com as da divisão em outros países, o que deverá aumentar as condições de segurança da planta, a confiabilidade e a qualidade dos processos.

Divulgação

Vista parcial de reator da linha de poliuretanos em Belford Roxo-RJ

Uma parcela dos investimentos deverá ser destinada ao laboratório de revestimentos, adesivos e especialidades na base paulistana da empresa. A ideia é estabelecer como função do laboratório a prestação de serviços de apoio a clientes. “É algo a mais para nos mantermos sempre à frente da concorrência”, afirma Ostertag, o presidente da divisão MaterialScience. Ele acredita que o laboratório pode e deve apresentar como diferencial ao cliente a oportunidade de ver de perto a aplicação das tecnologias. “O nível de qualidade exigido por um cliente, por exemplo, na aplicação de um verniz resistente a raios ultravioleta, poderá ser testado em seu carro, na sua presença”, exemplifica Ostertag.

No bojo desses investimentos, em julho próximo deverá entrar em operação no Rio uma nova divisão para toda a experiência acumulada pelo grupo nas áreas química, farmacêutica, de proteção ambiental e de infraestrutura – a Bayer Technology Services, que se propõe a oferecer um espectro de soluções desde engenharia e tecnologia à automação e inovação para seus clientes.

Ecologia lucrativa – O presidente Horstfried Laepple explicou que em seu “alinhamento estratégico” o grupo Bayer conseguiu limitar o impacto da crise econômica nos negócios mundiais o ano passado. Apesar disso, Laepple acrescentou que a empresa sentiu a queda nas vendas (5,7% em relação a 2008) e também no lucro (6,6% em relação a 2008). Essas reduções em relação ao período anterior não impediram que, depois dos cálculos de reajustes de câmbio e de portfólio, historicamente a Bayer registrasse o seu terceiro recorde de lucro (6,5 bilhões de euros) e um ano de resultados positivos do grupo Bayer no país, com crescimento de 3% no faturamento (R$ 3,8 bilhões).

Esses resultados econômicos e financeiros atestaram o acerto das estratégias para dobrar a crise com a alternativa da inovação dos produtos ambientalmente responsáveis. No cômputo total dos resultados das atividades da Bayer MaterialScience, a divisão de materiais inovadores do grupo, registrou queda de 14% no faturamento no país. Por exemplo, segundo o presidente da divisão MaterialScience, Ulrich Ostertag, a inovação das dispersões aquosas de poliacrilato (PAC, da linha de produtos Bayhydrol A) combinadas com reticuladores de poliisocianatos hidrofilizados Bayhydur para a formulação de sistemas de revestimentos foi um dos produtos que teve boa aceitação e consequências para a superação da crise, “por estabelecer novos padrões de sustentabilidade com economia”, como frisa Ostertag.

Com essa orientação, o dirigente da Bayer MaterialScience acrescenta que o grupo também decidiu partir para a comercialização de revestimentos à base de resinas alifáticas poliaspárticas aplicáveis em obras infraestruturais e de construção civil. O novo revestimento funciona como uma espécie de catalisador na secagem da tinta, acelerando-a, com benefícios imediatos em termos de produtividade e durabilidade no longo prazo – revelando-se “um produto contemporâneo e simpaticamente ecológico”, como definiu Ostertag.

No século passado, a Bayer pesquisou, desenvolveu e lançou o poliuretano mundialmente. Agora, após avançar nos procedimentos para a produção de dormentes de poliuretano em ferrovias, sistemas de isolamento térmico na construção civil e a formulação de resinas para vernizes que garantem eficiência e rapidez na remoção de pichações, restos de colas, poeira e outras formas de poluição arquitetônica urbana, o grupo se concentra também no segmento de policarbonato, firmando parcerias para o desdobramento tecnológico desse material para as mais diversas aplicações. A elevação nas vendas de poliuretano termoplástico (TPU) e a consolidação dos produtos da Bayer MaterialScience manufaturados com poliuretano – de modo particular, o setor calçadista – também serviram de suporte para atravessar o ano de 2009.

Na fatia de matérias-primas mais específicas para obras e serviços públicos, a Copa do Mundo de 2014 e a Olimpíada de 2016 foram identificadas como nichos de possibilidades de negócios para a divisão Bayer MaterialScience, que detém a tecnologia da chapa de policarbonato transparente para a cobertura de ginásios e estádios esportivos.

Durante 2009, o policarbonato, com a marca Makrolon, teve sua demanda aquecida pela indústria eletrônica audiovisual de CDs e DVDs, agora com a tecnologia Blu-Ray. Também os sistemas de pintura e repintura de veículos e revestimentos para interior de carros, ao lado dos bens de consumo da chamada linha branca, reforçaram o portfólio da área. Na indústria automotiva, a demanda de policarbonato se concentrou na instalação de lentes para faróis e extrusões.

Além da criatividade dos produtos inovadores que ajudaram a romper com as limitações impostas pelas circunstâncias econômicas e a se empenhar para a retomada dos resultados do período pré-crise, durante 2009 a Bayer conseguiu abrir o fornecimento de um novo material para o setor de identificação na área de segurança pública. Com a aprovação do Makrofol, um filme funcional de policarbonato para documentos, o material deverá ser utilizado na nova carteira de identidade nacional que, segundo Ostertag, será mais segura, de falsificação praticamente impossível. Na busca de alternativas, o grupo não hesitou quando surgiu a possibilidade de estrear no segmento de cosméticos na América Latina, com o lançamento de BayQsan – uma série de produtos de dispersões poliuretânicas inovadoras, para formulações de cosméticos para proteção solar, cuidados com a pele e os cabelos.

Hilton Libos

COURO
Indústria química pede fidelidade aos clientes

Vice-coordenador da Comissão Setorial de Produtos Quí­mi­cos para Couros da Associa­ção Brasileira da Indústria Química (Abiquim), Romil­do Sasso deu um puxão de orelha nos representantes da cadeia produtiva do couro do sul do país, em uma reunião realizada em nove de março na cidade gaúcha de Novo Hamburgo. O evento foi organizado pela Associação das Indústrias de Curtume do Rio Grande do Sul (AICSul).

Sasso disse que os curtumes e empresas de calçados, de maneira geral, não são clientes fiéis e muitas vezes preferem comprar produtos químicos de baixo desempenho, a preços menores, em detrimento da qualidade. Segundo o dirigente, também executivo da Basf, a indústria química gostaria de contribuir para a valorização do couro brasileiro, sendo reconhecida como parte crucial da cadeia produtiva.  

Observando que a indústria química brasileira teve uma queda de faturamento de 15% no ano passado, com receita de US$ 103 bilhões, Sasso ressaltou que existe uma expectativa de recuperação neste ano. Em relação aos produtos para couro, sublinhou que representam apenas 0,8% do global do setor e tiveram uma queda de US$ 425 milhões em 2008 para US$ 320 milhões no ano passado. A queda foi de 25% nas vendas para a produção de wet blue (menor valor agregado) e de 22% em couros acabados.

Segundo Sasso, a comissão setorial de produtos químicos para couros tem como missão promover o aumento da competitividade e o desenvolvimento sustentável da indústria. Conforme criticou, a falta de fidelidade dos clientes desestimula manter investimentos no país. “Existem outras regiões mais competitivas. O custo Brasil é desencorajador. Não posso falar por outras empresas por razões éticas, mas a Basf, em que trabalho, já transferiu alguns ativos para a Argentina”, desabafou Sasso. Ele atribuiu esse deslocamento da produção para outros países também a razões estruturais, outro problema a ser enfrentado.

Fernando C. de Castro

Sasso: parte da produção química foi
transferida para vizinhos

O coordenador destacou que, mesmo assim, a Abiquim vislumbra muitas oportunidades entre os setores do couro e a indústria química, e desafiou as duas entidades a unirem esforços para desenvolver projetos conjuntos, tanto na área tecnológica quanto em pleitos na área política. O presidente da AICSul, Francisco Gomes, recebeu a proposta com entusiasmo e garantiu que a entidade representativa do setor coureiro gaúcho trilhará este caminho.

A Abiquim identifica desafios para o setor químico, elegendo a sustentabilidade como a questão prioritária, considerada como valor fundamental e como geradora de investimentos em planejamento, desenvolvimento e inovação. Sasso citou o Programa de Atuação Responsável, lançado no Brasil em 1992. Esse programa estabelece procedimentos de melhoria contínua em vários campos de atividade da indústria, com destaque para a menor emissão de efluentes; redução na geração de resíduos; saúde ocupacional; segurança no transporte e preparação para o atendimento a emergências.

No longo prazo, o palestrante afirmou que a entidade projeta posicionar a indústria química brasileira em 2020 entre as cinco maiores do mundo, tornando o país superavitário em produtos químicos e líder em química verde. Para tanto, prevê investimento de US$ 132 bilhões. Sasso sublinhou que o setor coureiro pode ser um parceiro em várias ações nesse programa, em vez da posição secundária que ocupa atualmente.

Como cenários e desafios da indústria química ele lembrou a regulamentação do REACH – Regulamento para o Registro, Avaliação, Autorização e Restrição de Produtos Químicos comercializados na União Europeia (UE) – em vigor desde 1º de junho de 2007. “A indústria teve que registrar produtos químicos enquadrados nessa norma, gerando aumento de custos”, salientou. Além disso, a Abiquim, nos próximos dez anos, pretende acompanhar de perto a reestruturação de joint ventures ou as vendas anunciadas de grandes players do mercado.

Fernando Cibelli de Castro

ENSINO E PESQUISA
Braskem doa o antigo SDCD da Copesul para a UFRGS

A Braskem doou um Sistema Descentralizado de Controle Distribuído (SDCD) à Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) durante cerimônia realizada no gabinete do reitor, em 16 de março. O SDCD é o “cérebro eletrônico” de grandes plantas químicas e de outros sistemas de reação crítica, tais como petrolíferas, unidades farmacêuticas de defensivos agrícolas, entre outras. A universidade gaúcha será a primeira no Brasil a contar com esse tipo de equipamento para uso nos cursos de graduação e pós-graduação.

O SDCD foi usado pela Unidade de Insumos Básicos da antiga Copesul, em Triunfo-RS, desde 1985. Com a compra da central petroquímica gaúcha pela Braskem, um novo sistema de última geração foi colocado em operação recentemente, aposentando o SDCD. A UFRGS também receberá um software de controle de automação atualizado, doado pela Metso, empresa finlandesa detentora de tecnologia de ponta para programação desse tipo de equipamento.

O equipamento controlava os fornos de pirólise, o coração de um cracker petroquímico, e foi colocado à disposição da atividade acadêmica. Ele será usado como um simulador de processos, que só poderia ser conhecido por estudantes da área de química se e quando fossem trabalhar na operação de empresas de grande porte.

Para o vice-presidente-executivo da petroquímica, Manoel Carnaúba, a iniciativa fortalece a todos: a universidade, os pesquisadores e a Braskem. Ele considera o sistema como versátil, aceitando o acoplamento de computadores. Com isso, a interligação aos sistemas existentes dentro de um ambiente acadêmico será feita sem qualquer dificuldade. “É análogo a um simulador de voo usado na formação de pilotos de avião”, comparou.

Outra vantagem vislumbrada por Carnaúba diz respeito às novas aplicações que poderão resultar do uso do equipamento em cursos de engenharia e de tecnologia da informação, que futuramente poderão ser aproveitadas pela Braskem. “Como o equipamento estará dentro de um local de pesquisa, algumas inovações poderão surgir com base em novos protocolos”, confia Carnaúba.

De acordo com o reitor da UFRGS, Carlos Alexandre Netto, a iniciativa da Braskem é definida como “interação de conhecimento” entre a academia e a iniciativa privada. Ele adiantou que o SDCD terá sua utilização ampliada para diversas áreas da universidade. Além da engenharia química, os professores e alunos dos cursos de química, engenharia elétrica e ciências da computação terão acesso a ele, como forma de entendê-lo e até aperfeiçoá-lo. Na oportunidade, Netto aceitou convite de Carnaúba para conhecer o complexo petroquímico da Braskem, em Triunfo, incluindo o canteiro de obras da primeira planta de polietileno do mundo que produzirá eteno pela rota etílica.

“Os profissionais formados e que trabalharem com esse sistema estarão mais capacitados para atuar na indústria química”, disse Jorge Trierweiler, professor da Escola de Engenharia da UFRGS. O equipamento tem valor estimado de R$ 500 mil – um novo custaria R$ 1 milhão.

A cidade gaúcha de Triunfo, além de unidades completas de produção de derivados petroquímicos, reúne os principais ativos para desenvolvimento e pesquisa da Braskem: são oito unidades piloto, um centro tecnológico com os laboratórios mais avançados da América Latina,

controlados pela iniciativa privada – para atividade petroquímica – onde trabalha um grupo expressivo de doutores, mestres e técnicos, todos voltados para apresentar soluções e novas aplicações em resinas termoplásticas.

Na ocasião de assinatura do convênio de doação com a UFRGS, os executivos da Braskem anteciparam que a planta de polietileno via etanol, orçada em R$ 500 milhões, deverá entrar em operação três

Fernando C. de Castro

Assinatura de convênio: SDCD funcionará
como planta virtual

meses antes do previsto. Inicialmente, eles esperavam concluir a obra em 18 meses, mas poderão promover a partida da planta em caráter experimental já na virada do semestre deste ano. “O Rio Grande do Sul será a primeira região do mundo a produzir polietileno obtido de fonte renovável o que muito nos orgulha”, finalizou Carnaúba.

F. C. C.